Das Violências Várias, Da Causa e dos Desgovernos

Por Marcos Loures

Uma análise se faz imperativa nesses dias de violência extrema nas ruas da principal cidade do Brasil.Um estudo comparativo entre o Rio de Janeiro e São Paulo, demonstra para qualquer observado, as diferenças básicas entre as relações humanas e o trato das diferenças sociais dessas cidades, nos trazendo uma luz sobre a origem da violência e os aspectos que diferenciam ambas capitais.O Rio de Janeiro, tanto pela origem histórica, como antiga Corte Imperial e depois Capital da Republica, principal porta de entrada dos imigrantes do século 19 e 20, cidade historicamente pluricultural, com um crescimento baseado na importação e exportação via Porto de São Sebastião, o maio do Brasil por longos anos, trazendo para o cais todos os tipos de trabalhadores tanto brasileiros quanto estrangeirosAssociado a isso temos a praia, o futebol no aterro do Flamengo dos finais de semana, os bailes de carnaval, as Escolas de Samba, o Maracanã, os ensaios das Escolas de Samba e, ultimamente, os bailes funks.Nesses ambientes, convivem pacificamente tanto o proletariado suburbano e favelado quanto a elite econômica e social da Cidade Maravilhosa.É comum vermos, no mesmo ambiente, em caráter de total camaradagem, tanto favelados quanto milionários, numa extremamente salutar cooperação e convívio.Morei no Rio por muitos anos e sei o quanto o carioca sabe lidar com as diferenças raciais, sociais, econômicas e culturais.Como estudante e depois como médico, podia freqüentar, com a mesma serenidade, as rodas de pagode suburbanas, os ensaios de escolas de samba, as praias, sempre democráticas, o futebol no final de Semana no Aterro, a feira nordestina de São Cristóvão, os prostíbulos da Praça Mauá, as gafieiras do centro da cidade, os restaurantes e shoppings da Zona Sul, as boates, como a do Hotel Nacional, clubes da Zona Norte e da Zona Sul, num encontro entre o asfalto e o morro, como citado por Marcelo D2, de uma fantástica sincronia entre os mais diferentes tipos de cultura e de classes sociais.É comum se ver, nos mais requintados shoppings e restaurantes, pessoas de bermuda, camiseta e sandálias de dedo, convivendo, pacificamente, com engravatados e "bem vestidos".O índice de violência contra grupos raciais, sociais, sexuais, no Rio é infinitamente menor do que ocorre em São Paulo.A violência no Rio, está na sua base quase que totalmente ligada à disputa entre grupos rivais pelos pontos de venda de drogas.Esses, sendo combatido ou pela ação repressiva constante e bem organizada ou pela liberação do uso e comércio de drogas, controversa medida que deve ser analisada com muito rigor, levariam a uma sensível melhora nos índices de violência da Cidade Maravilhosa.Agora, quanto a São Paulo, temos uma origem bem diversa.São Paulo, historicamente tem suas origens na província, o que, na realidade quer dizer que, tem suas famílias quatrocentonas de base provinciana, acostumadas com a escravização e o coronelismo, com a subserviência e com a separação, em guetos e em castas.É difícil imaginar um convívio entre a elite paulista, burguesa e excludente, com o proletariado, formado pelos migrantes mineiros e nordestinos, fugidos da escravidão em suas terras para se oferecerem como trabalhador de baixo custo na construção civil, nas feiras, como empregadas domésticas, como trocadores de ônibus, guardas noturnos, guardas civis, policiais, babás, o verdadeiro brejo da cruz social, gerador de miséria, e das discrepâncias sociais asquerosas e nojentas.A elite paulista "não se mistura com essa gentalha", num linguajar chulo, mas realista dessa ignóbil verdade.A formação dos guetos, "periferia" na linguagem do rap, alimentados pela discriminação contra pobres, prostitutas, nordestinos, mendigos, homossexuais, etc...,criada e incentivada nas elites burguesas, donas das suas salas, e das ruas e bairros isolados, com seus bares, shoppings, casas noturnas e boates exclusivistas, onde a presença de quem quer que não seja ligado a essa elite é tida como indesejávelOnde a pobreza é expulsa a chutes e pontapés pelos capitães do mato, chamados "seguranças", mas na verdade agentes oriundos do proletariado para atuar contra esse mesmo proletariado, para defender uma "casta" burguesa recendendo a Coco Chanel, vestida de Valentino e vomitando preconceito.Os carecas ou cabeças raspadas , os neonazistas, os grupos anti nordestinos, anti-gays, anti-putas, assassinos dos mendigos com o sórdido prazer de ver carne humana incendiada ou saber do estrago que um taco de beisebol possa causar em um ser humano, são o espelho mais visível dessa forma da burguesia paulista de ver a vida.Obviamente que, os crimes contra a integridade pessoal em Sampa são muito mais freqüentes e graves do que no Rio, crimes como seqüestros, assaltos, furtos, assassinatos a esmo, chacinas são o dia a dia paulista.A guerra travada em São Paulo tem aspectos muito mais profundos e ligados à segregação do que no Rio de Janeiro, portanto são de muito mais difícil solução.O nascimento do PCC, se faz ligado, muito mais à luta de classes do que o do Comando Vermelho no Rio, com aspectos mais ostensivamente ligado ao tráfico de entorpecentes.As raízes da violência em São Paulo não tem nenhum aspecto de romantismo, não tempos nenhuma menina filhinha de papai apaixonada pelo poder do traficante.O que se apresenta mais explícito é essa luta SOCIAL E CLASSISTA, de uma reação da PERIFERIA contra a BURGUESIA fedorenta e escravagista.A rebelião dos escravos paulistas não pode ser comparada à com a Guerra do poder paralelo carioca, baseada na liderança pelo controle de pontos de venda de drogas; ao contrário do aspecto da afirmação social que vemos em São Paulo.O comando da violência carioca se dá na mão de soldados do crime, sem grandes preocupações a não ser a venda da mercadoria; já em São Paulo, a estratégia dos grupos ligados à violência, se demonstra mais ostensivamente como uma guerra entre classes sociais disfarçada.O enriquecimento do PCC e o fortalecimento dos jardins da infância da violência, nas FEBENS da vida, demonstram a arquitetura de um projeto de luta por ascensão social e quebra de barreiras entre as elites e o proletariado, muito mais bem organizados do que os do Rio de Janeiro.O que aproxima os dois estados, em suas mazelas de insegurança pública é somente um fato.Todos os grupos, tanto os cariocas, quanto os paulistas, nasceram, cresceram e se sustentam pela CORRUPÇÃO E INOPERÂNCIA DE AMBOS OS ESTADOS.A corrupção dentro e fora dos Governos, como muitas vezes denunciadas, é o principal combustível para o crescimento dessas facções, poderes dentro do poder, verdadeiras sanguessugas de si mesmas.Retroalimentam-se o tempo todo , vivendo em simbiose eterna, com prejuízo para os pacatos cidadãos.Os massacres do Carandiru e esse agora, na tresloucada e inepta distribuição de balas feitas por uma polícia assustada e coagida, têm paralelo extremos entre si.No Rio, o massacre da baixada e de Vigário Geral, embora tão danosos quanto os acima citados, têm no "acerto de contas" entre bandidos tanto fardados quanto à paisana um aspecto bem diferenciado da reação da polícia paulista nos dois massacres supracitados; o do Carandiru foi ordenado pelo Comando, o de agora é, indiretamente contra os desmandos e as demonstrações de incompetência do Comando para enfrentar os problemas gerados, não pela polícia, mas sim pela omissão do Governo Paulista como um todo.

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2 comentários

  • Marcos Loures  
    9/6/06 9:51 PM

    Para o Velho Lobo, nesse ano onde brilham as estrelas

    Velho Lobo me surpreendeste.

    Sei de teu amor pelo Botafogo, e isso me fez te admirar bastante, hoje ao saber de tua afirmação de que o 13 do PT é de bom pressagio, passo a te admirar mais ainda.

    Pelo que significa essas duas estrelas tento, com humildade, te homenagear.



    Nas alegrias do povo

    Desse povo sofredor,

    Ao nascer de um dia novo,

    Onde prevaleça amor.

    Nas esperanças de glória,

    Na liberdade do sonho,

    Em meus olhos, onde ponho

    O brilho de nossa história.

    De todos meus sentimentos,

    Trago os meus pensamentos

    Na procura de esperança,

    São poucas essas lembranças

    Que me trazem tão à vida

    Das tristezas, despedida

    Da vitória mais curtida

    São poucas, vida sofrida

    De um povo cuja memória,.

    Muitas vezes se esfacela

    Acostumado a uma cela

    Sem ter por que sonhar.

    Povo cujo maior grito

    Sempre foi esse bendito

    De tentar comemorar,

    Em cada gol de verdade,

    Traduzir dignidade

    Em cada jogo de novo,

    No que é o pio do povo;

    Com sua simplicidade

    Dentre tantos, de verdade,

    És o único que ostenta

    Esse orgulho de ser penta.

    E por conhecer de estrelas,

    E Mais que nenhum sabê-las,

    Consegues bem demonstrar

    De maneira bem concisa

    Que nosso povo precisa

    Algo além para orgulhar.

    Da estrela botafoguense,

    Bem sei que sempre que vence

    Teu coração se convence

    De que vale a pena lutar.

    E nesse dois mil e seis,

    Isso se fez repetir,

    Trazendo belo porvir

    Para estrelas no Brasil,

    Pra esse povo varonil

    Valoroso brasileiro,

    Que possa, esse mundo inteiro

    De novo nos conhecer

    Povo feito pra vencer

    Na chama dessa batalha

    Que Deus, de novo nos valha

    Em campos dessa Alemanha

    Onde a estrela que se ganha,

    Sexta, na constelação

    Que pulsa com coração

    No brilho de luz tamanha,

    Capaz do mundo ofuscar

    De tão forte esse brilhar.

    Outra estrela que avermelha,

    Tem também essa centelha

    Com certeza brilhará.

    Eu bem sei que trará sorte,

    Para todos bem mais forte

    Que o ocaso de outras paragens

    Que desconhecem as vantagens;

    Constelação popular

    Que jamais irá parar

    Que representa essa raça,

    Em todos campos ou praça

    Que tem cheiro de cachaça

    Que traduz calor e graça;

    Conquistando esse planeta

    Mais uma estrela, um cometa

    Estrela tão benfazeja

    Que nossa terra já beija

    Não desiste da peleja

    Tanto luta, tanto almeja

    Não teme nem dor nem morte

    Estrela de grande porte

    Tem o número da sorte!

  • MARCOS LOURES  
    10/6/06 12:42 AM

    Na noite fria, o vento passando pelas gretas da porta, assoviando como a tosse da mãe, dolorosa tosse.
    A morte rondando a cidade, à bala e à fome, armas constantes apontadas sobre o morro.
    Os irmãos, todos os nove, dormem abraçados e seminus. O cobertor não dá para todos, os menores sofrem mais, descobertos.
    A irmã mais velha, barriga grande, esperando mais um para completar a dezena, mas desta vez outra geração será inaugurada.
    Nova geração, miséria antiga, fome constante.
    A garrafa de cachaça pela metade denuncia que o pai está em casa. Ainda bem.
    O pai em casa, coisa rara, é sinal de comida amanhã.
    O arroz e o feijão no prato, minguado prato do dia-a-dia, poderia com certeza estar acompanhado de algo mais, quem sabe um naco de carne ou de frango.
    Vida dura, durando muito para quem mais teima que vive.
    Barriga d’água, cheia das lombrigas de sempre, os cabelos amarelados pela fome, contrastando com as pernas finas, perebentas.
    O cheiro podre de vala e de suor, misturados no único cômodo do barraco.
    A porta parcialmente trancada, a tramela não adiantava mais.
    A polícia, na última vez que viera nada encontrara, mas a porta não resistira.
    Os pontapés assustaram, ninguém sabia dizer por que tinha que ser assim.
    A mãe tuberculosa, a cada dia ia minguando. Remédio até que tomava, mas a comida pouca; amor de mãe é fogo, das parcas colheres, nada colhia. Alimentar os meninos.
    A morte talvez resolvesse os problemas. Mas a luta era diária e o medo maior que tudo. Agora ia ser avó, precocemente envelhecida, os trinta anos batendo na porta. A filha de treze agora era duas.
    A magreza dos meninos assustava.
    Os meninos, ao revirar o lixo, muitas vezes se saciavam com as podres delícias.
    Um dia, o mais velho encontrara um lote de iogurte vencido. Delicioso, coisa de rico.
    Como poderia esperar algo, além disso?
    Invejara, muitas vezes, os urubus. Esses tinham colheita certa e comida abundante.
    Num local onde a morte é lugar comum; fartura de alimento somente para eles.
    O rosto dos meninos, sem direção, sem nexo nem sentido, denunciava a luta voraz destes para chegar o dia seguinte, e assim por diante.
    Ano passado, quase que o Mariozinho morreu. Não fossem as rezas da vizinha, adeus!
    Comida, saúde, escola, essas coisas que todo mundo promete, ilusão.
    A fome é cruel, muito cruel. Não se pode falar de fome se não a conhecer.
    Não é essa fome de madame querendo emagrecer ou a ocasional, a de um dia, não.
    A fome de uma vida, de uma vida após outra vida, nessa semi-morte que arrasta a todos para o lixão.
    Outro dia, sem que ninguém soubesse por que, o dono do morro pediu a casa “emprestada” para esconder uns camaradas que vieram de outra favela. Fazer o quê?
    Levaram o rádio de pilha e a televisão, últimos contatos com a vida no asfalto.
    É difícil essa vida entre o bem e o mal, entre a polícia que quebra a porta e o traficante que leva a televisão.
    Fazer o quê?
    Voltar para Minas, uma boa idéia, mas cadê Minas?
    A fome na roça também era terrível. Aqui pelo menos tem o lixão. A comida é mais farta, embora rala.
    Sua mãe tivera quinze, sobraram quatro. Dos quatro era a mais velha.
    Pelo que soube dos outros três, um estava preso, a menina caiu na vida e o outro enlouquecera, o sortudo.
    A mãe morreu ano passado. Da velhice que carrega aos 50 depois de ter morado mais de 20 nas costas do cidadão.
    Marido bom até que era, batia pouco, bebia muito.
    De vez em quando sumia. Falam que tem outra, a velhice precoce a tornara feia.
    A outra deveria ter a carne ainda dura, os peitos mais rijos e os dentes na boca.
    Além de tudo, não devia estar tísica. Danada dessa tosse, dessa febre, o sangue espalhara no colchão tantas vezes que colorira de vermelho o amarelado do mijo das crianças.
    Emagrecendo e se esvaindo, o frio daquela noite estava de lascar.
    A tosse de Joãozinho estava denunciando que a tísica estava criando raízes no barracão.
    Levar para o médico, marcar ficha, mês que vem se ainda estiver vivo ou se não tiver curado.
    Curado?! Doce ilusão, mais fácil ter morrido que se curar.
    Joãozinho, menino sempre foi fraco dos peitos, ao contrário da mais velha, peitos grandes para os treze anos. Agorinha mesmo mais um. Depois outro, outro... contagem mórbida, triste...
    O silêncio da noite é interrompido pelas balas, balas e mais balas.
    As balas de confeito estão nos sonhos dos meninos, a de aço perfura as paredes de zinco e de compensado. Barraco todo furado, chuva traz lama e goteiras. Vida complicada.
    O marido está sobre ela, as pernas confundidas depois de uma noite de sexo. Coisa que foi boa, hoje suplício. É melhor que ele fique com a outra.
    As costas doem muito e o prazer é impossível. Tem que fazer preventivo.
    As doenças do mundo estão brigando por espaço pra poderem crescer no corpo miúdo. A mãe do corpo está toda sangrante, numa eterna regra.
    De repente, percebe que as balas estão mais fortes que sempre.
    Um barulho arromba a porta. O namorado da filha, menino ainda, entra na casa.
    Transtornado pela cocaína e pelo álcool.
    As balas se aproximam e procuram lugar macio. Barriga grávida, local macio. Fácil de entrar, penetram, abortando o futuro e o presente. De uma vez só.
    Quem sabe foi melhor assim?
    O companheiro se levanta e xingando o namorado da menina morta, empurra-o para a saída. Saída do barraco. Saída da vida, saída.
    Mal sabe ele que não há mais saída.
    Mas a teimosia, logo o dia nasce, o corpo sepultado, a teimosia sobrevive.
    No céu, uma lua avermelhada a tudo assiste, e comovida abraça todo o barraco, inundando o barraco, a favela, a cidade e o país com uma estranha luz esverdeada e avermelhada.
    Quem sabe essa seja a saída?
    Uma lua vermelha, uma luz esverdeada e um brilho descomunal sobre tudo e sobre todos...

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